ANDREA PAZIENZA na Coleção Flávio Calazans

Neste ano de 2016 a editora VENETA de São Paulo lançou o álbum de quadrinhos "OS ULTIMOS DIAS DE POMPEU", o qual possivelmente seja o primeiro álbum de quadrinhos de autoria de Andrea Pazienza em idioma português.
Nesta foto as edições Italiana e a excelente edição capa dura brasileira! Melhor do que a versão italiana, por incrível que pareça!

No mesmo período dos anos 70 em que saia na França a revista "MÉTAL HURLANT" com obras de Moebius, Druillet, Dionnet e Gal, e os brasileiros Sérgio Macedo e Allan Voss (este franco-brasileiro), na Itália na cidade de BOLOGNA em 1977 um ativista do movimento estudantil publicava quadrinhos autorais e auto-biográficos (no exemplo de Robert Crumb da revista "Zap Comix" dos USA e introduzido no quadrinho italiano antes de Pazienza em 1972 por Guido BUZZELLI no álbum surrealista "ZIL ZELUB" um personagem cujo proprio nome é anagrama de BUZZELLI!) em revistas como "CANNIBALE" , "MALE" e depois na "LINUS" e na "FRIGIDAIRE" e até mesmo na famosa "CORTO MALTESE" (que publicava artistas italianos da Nona arte, nomes consagrados como Guido Crepax e Milo Manara); era ANDREA PAZIENZA.

PAZIENZA era da mesma geração de Tamburini e Liberatori (Ranxerox) e igualmente consumidor de drogas ilegais injetáveis (HEROÍNA, um destilado concentrado do ÒPIO extraido da flor Papoula), o que resultava em desenhos irregulares mas com uma beleza de dopping artistico; contudo também com roteiros dificeis de seguir de tão irregulares e tão ou mais a deriva quanto os desenhos, possivelmente devido aos entorpecentes consumidos regularmente.

Pazienza publicou, além de histórias em quadrinhos (Fumetti na Itália em referencia as fumaçinhas do hálito dos personagem falando no ar frio, fumaçinhas estas que compõe os balões, contendo falas como nas iluminuras e vitrais medievais, as chamadas Filacteras), muitas caricaturas e também ilustrações, capas de discos de vinil, desenho publicitário e colaboração em roteiro e direção de arte de filmes de cinema, etc.

"ZANARDI" é um personagem constante nas hqs de Pazienza, foi mesmo um certo tipo de alter ego de Pazienza, um personagem que acompanhado dos amigos Petrilli e Colasanti forma o trio de irreverentes autores de "pegadinhas" e molecagens maldosas, busca de drogas e até de sexo eventual, retratando uma geração da Itália sem esperança; vagando na noite sem futuro, nem sonhos, desiludida de políticos e de religião, nilista e amarga em suas zombarias, malfeitos no fundo tristes e no abandono de si mesmos às drogas e ao viver cada dia sem conseqüências nem planejamentos ou mesmo sem perspectiva de futuro.

Na HQ "La prima delle tre" Zanardi está na fila do cinema e começa uma briga violenta, na qual Zanardi enfrenta O PRÓPRIO PAZIENZA e o derruba com um forte murro na cara! Era a ironia de Pazienza! O personagem esmurrando e nocauteando seu próprio criador !



ZANARDI e seus amigos fazem lembrar bastante a série de comédias cinematográficas com Hugo Tognazi- "MEUS CAROS AMIGOS : QUINTETO IRREVERENTE" apenas que as bofetadas na estação de trem em Pazienza são socos e pontapés muito mais violentos com a crueldade de Zanardi, incluindo doses de perversidade e crueldade até exagerada ...mas ao que parece uma constante no mundo dos jovens italianos do período, como se percebe também em outro personagem italiano do mesmo período histórico,"Ranxerox"- como na cena em que Ranxerox esmaga a mão da menininha que vende flores e os dedinhos dela caem pelo chão ensaguentados, tudo aos aplausos dos frequentadores do restaurante!


Este álbum "OS ÚLTIMOS DIAS DE POMPEU" é um evidente trocadilho com o livro "Os ultimos dias de Pompéia" (que também foi filmado por Hollywood);Pompéia foi a cidade enterrada por lava e cinzas na erupção do vulcão Vesúvio junto à cidade vizinha de Erculano , ao norte de Sorrento (Sereia) e da ilha de Capri (localize Napólis no mapa da Itália e vá subindo).

A obra POMPEU é mais auto-biográfica do que Zanardi, e chega a ser profética, a crônica de uma morte anunciada, a do próprio Pazienza.

Pompeu desenvolve-se como um diário no qual ele próprio nos narra e confidencia a sua angústia existencial e desespero crescente, o vazio de sua vida sem perspectivas e sem esperança, que encontra ao se drogar uma fuga e escape efemero e fugás do tormento de pensar em seu passado; cheio de erros e remorsos, ou de suportar seu presente triste e melancólico encarando a falta de perspectivas de um governo corruPTo .

A narrativa de Pompeu é minimalista em diálogos, entretanto é louquaz e abundante em fluxos de pensamento inconsciente, do monólogo interior do personagem, muitas frases sequer tem sentido; e outras frases nada tem relacionado com a narrativa sendo desenvolvida.

Recorda a escrita automática criado por André Breton no movimento surrealista, e há trechos que ate mesmo recordam-me o "Une Saison en Enfer" de Arthur RIMBAUD...

A arte feita sobre papel quadriculado é outra brincadeira afrontosa típica de Pazienza, que assim desenhando sobre quadriculado preto da mesma cor do nanquim , tornou imposivel limpar na gráfica. deste modo obrigando sua publicação com os quadriculados interferindo nas cenas, como se fossem desenhos feitos em qualquer papel disponível ao acaso.

POMPEU foi terminada com Pazienza tendo 31 anos,

ATENÇÂO

SPOILER ---

--- E veja abaixo a data da interrupção de ASTARTE.



Na revista "COMIC ART" Pazienza publica o primeiro capítulo de uma série sugestiva e provocante, "STORIA DE ASTARTE" , na qual o protagonista-narrador é um cão de guerra do exército de Anibal ; Anibal foi o general Cartaginês que cercou a cidade de Roma por anos a fio no Século III, com um exercito portando até elefantes.

O cão mastim ASTARTE surge invadindo os sonhos de um rapaz humano nos dias de hoje, como o cão condescendente pacientemente explica ao sonhador cuja vida onírica ele invade, o sonhador é um homem é muito fraco e ele, o cão, é muito mais forte e suplanta a vontade débil deste humano frágil e impotente!

Assim o imponente e nobre Astarte e passa a contar sua história, a história desta guerra genialmente narrada do ponto de vista do cachorro, nascido durante a campanha militar; treinado como CÂO DE GUERRA!
Na foto o álbum CULT "STORIA DE ASTARTE" na edição capa dura de luxo italiana !

E no conjunto de uma obra livre, experimental e irregular Pazienza surpreeendeu a todos nós que acompanhávamos sua obra com este ASTARTE,

Sim, uma hq detalhista com incrivel pesquisa histórica minuciosa e com um roteiro linear e consistente ; sem deixar de ser extremamente criativo e envolvente!

Talvez o ponto incial da concepção desta HQ , ao meu ver como autor, - considerando o estilo e recursos narrativos e estilísticos da obra de Pazienza que acompanhei por anos a fio antes de surgir ASTARTE- poderia ter sido a possibilidade de choque visual da armadura que os corpulentos cães mastins usavam no treinamento em Cartago,

armadura-colete com uma lâmina curva nas costas para correrem entre as pernas dos cavalos da cavalaria romana , os estripando, em cenas de violência explícita e sanguinolenta que certamente desagradarão aos que amam os animais!

Lamentavelmente Pazienza somente publica o primeiro capítulo da série pois em 15 de junho de 1988, aos 32 anos de idade, Pazienza falece deixando esta obra inacabada,

... mas mesmo assim esta HQ torna-se CULT e um mito, publicada em álbum capa dura e reverenciada por leitores em todo o mundo.



Recordo de Rinaldo Traini, editor da revista "COMIC ART" que disse em entrevistas as quais li na época que alguns dias antes de morrer Pazienza esteve na redação comentando entusiasmado sobre o capítulo seguinte de ASTARTE que teria mais de dez páginas.

POMPEU é uma das obras que deve constar de toda boa biblioteca de quadrinhos, se possivel junto a amostras de ZANARDI e ao genial ASTARTE!

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