Quadrinhos na escola - Calazans entrevistado no jornal O SANTISTA por Fabio Tatsubô

Na entrevista ao Fábio Tatsubo no jornal "O Santista" resumo a metodologia que desenvolvi no meu livro "História em Quadrinhos na Escola" da editora Paulus já em Terceira Edição.
O aluno traz seus proprios gibis e o professor adapta ao conteúdo didático recortando as revistas
e usando o antigo e barato recurso do flanelografo a um custo Minino.

O aluno cria narrativas no primeiro momento respeitando o personagem tipo Batman e num segundo momento questionando a violência do personagem e seus crimes e abusos.

Numa primeira fase, o professor deve identificar o que os alunos lêem e pedir que eles tragam material. Iniciei esse projeto com cursos para professores da rede estadual de ensino de São Paulo.

Em São Vicente, capacitei para o uso de HQ em sala de aula professores de escolas da favela México 70, que é a segunda maior favela do mundo, só perde para a da Rocinha. Na primeira vez, fui com a idéia de impor o que eu achava que deveria ser lido – Asterix para o ensino de História, Tintin para Geografia, super-heróis para Ciências. Tentamos levar isso para sala de aula e a reação foi terrível, porque os alunos não conheciam autores europeus. No meio do curso eu inverti a situação.

A proposta, então, foi a de utilizar o material que o aluno trazia.

Em primeiro lugar vinha Maurício de Souza, em segundo lugar Disney e em terceiro super-heróis. Mas, chegavam também gibis de treinamento de fábrica e até pornô. O professor fazia a triagem e reaplicava o próprio material. Repetimos esse curso mais duas vezes e tivemos 100% de aceitação. Eles recortavam os personagens e aplicavam no flanelógrafo. Em um pedaço de madeira ou cartolina é grampeada a flanela em cima, ou ainda pode ser usada a própria flanela solta. Depois eles escrevem e colam os balões, enfim, criam sua própria história. Depois, o material pode ser xerocado, se houver verba para xérox. A idéia é trabalhar com o mínimo de verba.

Sobre o conteúdo, se for uma turma de alfabetização, a HQ pode ajudar a criar narrativas. As crianças contam histórias da própria rotina deles, num primeiro momento, obedecendo as características do personagem. Se a Monica bate nos meninos, eles também vão bater na história.

Num segundo momento, o professor pode estimulá-los a inverter a posição, a subverter: a Monica não está batendo, mas levando. O que o aluno acha disso? O aluno começa a ver a questão da violência, a reconstruir a narrativa. A coisa é maior do que parece, é um projeto pedagógico mesmo.

Você se apropria dos significados, mistura tudo. É picotar e brincar com as imagens. Nada impede que se misture Monica, Homem-Aranha, Batman, Capitão América, Tio Patinhas numa única cena e ainda incluir caricaturas de políticos. Se apropriando desse material, o aluno irá ressignificar, criar novos significados de acordo com a sua realidade e desenvolver o senso crítico. Basta o professor ‘dar corda’ e conduzir a aula com muito tato. Acontece uma inversão da posição do professor. Ele não vai impor um conteúdo ou uma técnica. Ele vai receber do aluno e trabalhar com o que ele recebe. Tudo depende da mão do professor. O quadrinho é um instrumento, uma mídia, como TV ou DVD.

O professor pode matar aula fazendo a criançada assistir desenho animado ou pode trazer para eles um filme da National Geographic.

Pode-se fazer mal ou bom uso do mesmo instrumento.

O que eu proponho é usar a HQ não de maneira reverencial, temerosa, apenas usando um produto que já foi feito para sala de aula, como um livro didático com quadrinhos. Existem livros didáticos que usam o quadrinho de maneira correta, isto é, com muita ação e pouco diálogo. Não se trata de se apropriar dos quadrinhos, mas de criar um livro todo em quadrinhos, com um roteirista e um desenhista. E o Brasil foi pioneiro nisso no começo dos anos 70, poucos sabem, com uma série de livros de História e Geografia.

Uma tira produzida para ser publicada em jornal não tem nenhum compromisso pedagógico, nem objetivos didáticos. Normalmente, elas são usadas apenas para explicar as onomatopéias. Quando o quadrinho é mal usado, o próprio aluno rejeita. Ele sabe que está mal usado.

Hoje, na época do mangá, com muito movimento e pouquíssimo texto, o aluno quer essa linguagem. Se o livro didático não estiver nessa linguagem ele não vai aceitar. Mas o livro didático é para quem pode comprar. O custo que proponho é quase zero para construir o flanelógrafo. O aluno traz a revista, recorta e brinca de interagir com os personagens. Mistura os personagens entre si, a Monica com o Pato Donald, faz uma grande bagunça disso tudo. E eles começam a se divertir, é lúdico, é prazer.

Ninguém nunca foi obrigado a ler quadrinhos. HQ é prazer, lazer, brincadeira. Eles lêem quadrinhos mais do que a gente imagina, muito mais. Há pesquisas que mostram que em uma classe 100% dos alunos conhece a linguagem do quadrinho, já teve uma HQ na mão. E isso acontece em qualquer classe social, não é porque é favela que não circula quadrinho usado. Eles trocam revistas, compram duas pelo preço de uma, o material circula. Não há como não ter acesso.

O flanelógrafo é quase como um desenho animado, vira uma coisa interativa, a criança brinca com os personagens. Se a escola tiver condições, pode tirar xerox das páginas que eles montaram e eles mesmos criarem os balões. O trabalho pode ser escaneado, desenhado com photoshop, colorido em corel draw ou projetado num datashow. Mas é possível trabalhar sem nada disso, apenas com o flanelógrafo.

Uma vez que ele começa a brincar com o boneco, ele perde medo e o bloqueio. Trabalho no sentido de mudar a visão do aluno receptor passivo, que só lê, para a posição de criador. Numa primeira fase ele cria a história imitando as características dos personagens, numa segunda fase ele passa a subvertê-las. Isso depende do tato do professor, do ritmo da classe, não existe uma fórmula fechada, como tudo em sala de aula. O professor pode adequar conteúdos para o quadrinho.

Em Geografia, a turma da Disney viaja pelo mundo. Numa segunda fase, pode ser questionado o estereótipo do Tio Patinhas capitalista: ele roubou o tesouro, pôs o índio para trabalhar para ele. Está certo? E se você fosse empregado dele? O Tio Patinhas não paga o seu empregado, isso é bom? É preciso mostrar o outro lado: Tio Patinhas é o capitalista selvagem, o Mickey é alcagüete da polícia, Pato Donald é o desempregado crônico, o Pateta é uma espécie de pião do Mickey, sua burrice valoriza a inteligência do Mickey, como a brutalidade do Obelix valoriza a inteligência do Asterix.

O humor é sempre recorrente nas atividades com Gibis, já que o quadrinho é muito lúdico, muito prazeroso. O aluno aprende com prazer.

Pela teoria cognitiva, quando você tem prazer, há um derrame do neurotransmissor dopamina. No momento em que o aluno está brincando e aprendendo junto, há esse derrame de dopamina, o que gera a memória de longo prazo. Se ele aprende com medo, estressado, ele produz hidrocortisóide e gera memória de curto prazo.

Por que quando decoramos diversos conteúdos para o vestibular no dia seguinte esquecemos tudo? Porque aprendemos com stress. O que se aprendeu com gosto, porque se quis aprender, não se esquece nunca, porque alcança a memória de longo prazo. Ao mesmo tempo em que o quadrinho gera o derrame de dopamina, é prazeroso e lúdico, ele é um problema para o professor porque é humor. E não há nenhuma teoria pedagógica que admita o humor. O humor quebra a estrutura autoritária da sala de aula. Entramos na pedagogia da libertação, de Paulo Freire, e saímos da pedagogia da opressão. Só que podemos sair de uma maneira descontrolada. O grande problema do uso do quadrinho em sala de aula é a questão do humor.

Ele tem que ser muito bem dosado para que não vire bagunça. O professor tem que ter muita interação com a classe, muito ‘jogo de cintura’, porque senão não segura mais a classe.

Nunca vi HQ dar errado dar errado porque o professor que acompanha a classe conhece o seu universo. O diretor que permite que o seu professor utilize quadrinhos em sala de aula é porque confia nos seus recursos humanos.

Com o vídeo acontece o mesmo. Se você não confia no seu professor, não dê vídeo para ele, porque ele vai usar o vídeo para enrolar a classe, ‘matar’ aula. Depende da relação entre o diretor, o orientador ou coordenador pedagógico e o professor. Os professores vêm justamente ouvir as minhas palestras para ter o meu aval. Muitas vezes eles já estão usando quadrinhos em sala, mas sem a direção saber.

Sugiro uma exposição do trabalho dos alunos no pátio, com os quadrinhos produzidos em sala de aula, para os pais e as outras classes.

Quando o professor descobrir que outros também estão usando a HQ, ele pode criar um núcleo, um grupo de trabalho sobre quadrinhos e desdobrá-lo para games ou cinema, por exemplo. A HQ é uma mídia como as outras, com a diferença que ela é mais barata e mais portátil.

Se há um fôlego inicial para os diálogos dos quadrinhos, que são bem rápidos, dependendo da origem e da história pessoal dos alunos pode-se pegar fôlego para criar um microconto, uma trova, um cordel.

Há alunos de descendência nordestina que têm o cordel como parte de sua cultura. Não é difícil partir do quadrinho para o cordel. No cordel os versos são escritos em redondilha maior, assim como na trova. Se o professor soube encadear essas características, ele pode ir do cordel à origem da literatura portuguesa, os trovadores medievais, ou do cordel partir para letras de músicas populares, que os alunos conheçam, mas sempre de maneira crítica. Uma idéia é quadrinizar uma letra de música, fazendo um link com toda a cultura de massa. Ou se o aluno tiver um bonequinho de um personagem, nada impede que o boneco em 3D interaja com a história criada em 2D e que essa relação se transforme numa narrativa.

Agradeço a Fabio Tastubo que incentivou-me e insistiu para que eu escrevesse este depoimento, Flavio Calazans

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