SPOCK: da Lógica à Apathéia Estóica em “Jornada nas Estrelas” (Star Trek). Flávio Calazans zans zans © - suɐzɐlɐɔ o calazanista (registrado) ©



"A lógica é o início da sabedoria, não o fim". Spock diz à sua estudante vulcana Valeris, no filme “Star Trek VI: A Terra Desconhecida” (1991).
(Esta reflexão tem por pré-requisito ter assistido à franquia de televisão e cinema “Jornada nas Estrelas” ou “Star Trek”).

Spock é um personagem de ficção científica, mestiço de uma humana com um embaixador do planeta Vulcano, habitado por humanóides de orelhas pontudas cuja hemoglobina não é de ferro, e dai o sangue não ser vermelho de ferro oxidado, e sim com base em cobre, cuja oxidação é verde, ou seja, sangue verde.

(Um artigo meu sobre tecnologia subliminar foi publicado no "DIARIO DE BORDO" ano 5 número 23. Star Trek Jornada nas Estrelas),



Um povo de explosões passionais e violentos, traiçoeiros, tribos em perpétua guerra, e um cio sexual incontrolável a cada sete anos chamado “Pon Far” o qual piora esta natureza agressiva.

O Filósofo Vulcano T’Plana-Hath afirmou que “A lógica é o cimento de nossa civilização, com o qual ascendemos do caos, utilizando a razão como nosso guia”, e o filósofo Kiri-kin-tha expande esta lógica para a consequente óbvia do que Aristóteles chamou de “Filosofia Primeira” ou Metafísica, com o axioma “nada irreal existe”. (2, p.40).

Dai surgem as três lógicas de Vulcano:

1) Lógica Formal (Sintática, o silogismo no “Organon” de Aristóteles, a “Lógica Nyaya” hindu de polissilogismos encadeados para empregar um pensamento claro, objetivo e lógico para assim libertar a mente da ignorância distraída pelas paixões, as SUMAS de São Tomás de Aquino articulando o estado da questão elencando em chaves dialéticas todas as opiniões contra e a favor e deduzindo a síntese, em um diálogo com todos filósofos anteriores).

2) Lógica Ética de Surak, pacifista, moral, ciente do outro, empatia e caridade cristã, altruísmo e sacrifício pelo amor ao próximo.

3) Lógica Meditativa dos Mosteiros, buscando o Kolinahr no Planalto de Gol.

O Filósofo SURAK sistematizou uma “Lógica Ética” de autocontrole pacifista visando o bem comum, “As necessidades de muitos superam a necessidade de poucos ou de um indivíduo”; instituindo a prática da meditação, a disciplina mental de controlar e focar o pensamento concentrando-se, e obtendo a paz de espírito, paz interior; fazendo o que Pitágoras, Platão e os primeiros cristãos chamam de “Exame de Consciência” dos atos do dia, perante uma força maior, metafísica, como Santo Agostinho nas suas “Confissões”, o primeiro livro do mundo escrito em primeira pessoa, confessando perante Deus.

A meditação pode ser focada em uma frase repetida ou mantra como no livro “Relatos de um Peregrino Russo” a frase repetida sem parar enquanto caminha "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador!".

A mesma técnica de cessar o fluxo de pensamento é praticada pelo Vulcano TUVOK na nave U.S.S, VOYAGER, que repete sem parar: “Uma estrutura não pode ficar de pé sem uma fundação. Lógica é a fundação da função. Função é a essência do controle. Eu estou no controle”; e enquanto repete monta um dispositivo geométrico (“aqui não entre quem não for Geômetra” a frase que Platão, geômetra como seu primeiro mestre Pitágoras, antes de Sócrates, mandou escrever na porta da Academia) chamado “keethara”, traduzido como “Estrutura de Harmonia” o que recorda Pitágoras outra vez, na música das esferas e harmônicas matemáticas, e estas geometrias em mandalas já surgiram antes com o IDIC Vulcano.



I.D.I.C. é um acrônimo em Star Trek que significa “Diversidade Infinita em Combinações Infinitas”. É o princípio filosófico fundamental da civilização vulcana, que celebra o imenso valor das variáveis, das diferenças e das perspectivas únicas no universo.

Deste modo a meditação é a base da cultura de Vulcano, meditar com lógica e de forma racional; dai tantos MONASTÉRIOS (mono ou MONGE significa um, sozinho, interiorizando) como o “Santuário T’Karath” fundado por Surak, onde seu “KATRA” (Alma) é mantida, seu CHI como se diz na China, KI no Japão, PRANA na Índia, “Elan Vital”, ALMA, etc..

Posteriormente outro Vulcano de nome SYRAN possuiu o KATRA de Surak e fundou o “movimento Syranita” buscando voltar aos ensinamentos originais de Surak.

Em Vulcano, no planalto de Gol, um monastério/Mosteiro pratica o “KOLINAHR”; viver com a mente em um estado meditativo permanente e constante (Presença do Espírito Santo invocado como um “Hóspede da Alma”) no qual entra-se “naqueles níveis de consciência que vão além do alcance da confusão, fadiga e dor” (2, p.46), como os primeiros mártires cristãos entregando-se a torturas e mortes hediondas.

No filme “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan” (1982) Spock liga sua alma (KATRA) à do médico Leonard McCoy, que no filme seguinte “Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock” (1984) passa a exibir comportamentos e atitudes de Spock, pela influência da alma dele hospedada no seu corpo.

Também vale comentar:

”O senso cósmico de unicidade que os vulcanos tem propõe uma questão Metafísica que eles não seriam capazes de resolver logicamente (...) Os mestres de Gol, é claro, passaram muito tempo de suas vidas buscando decifrar o enigma de como uma consciência viva poderia, o tempo todo, ser uma parte e o todo” (2, p.41).

Ora, a Teologia resolve esta questão a qual transcende a Metafísica.

"Philosophia ancilla theologiae" (A Filosofia é serva da Teologia). É um famoso adágio medieval latino que define a subordinação da razão à fé, frase atribuída a Pedro Damião do Século 13.

"UNIDOS MAS NÂO FUNDIDOS" resume o princípio filosófico e teológico da não-dualidade, onde elementos coexistem em perfeita harmonia (união) sem perder suas essências ou identidades individuais (sem fusão).

"Pois Nele vivemos, nos movemos e existimos" (Bíblia Atos 17:28). uma citação que o apóstolo Paulo usou em seu discurso em Atenas (no Areópago) para conectar a fé cristã com a filosofia grega, mostrando que Deus é a fonte de toda a vida e que todos somos "descendência Dele", Paulo, ao falar aos filósofos no Areópago, notou um altar dedicado ao "Deus Desconhecido" (Deus Ignoto) e usou isso como ponto de partida para apresentar o Deus verdadeiro, o Criador de tudo, convidando à reflexão sobre a verdadeira natureza de Deus, que não é uma imagem feita por mãos humanas, mas o criador que sustenta a existência.

" Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim". Explicou São Paulo (Bíblia, Gálatas, 2:20).

Todo o explanado da Filosofia Lógica dos vulcanos tem um fundo verdadeiro baseado em filósofos gregos e romanos que é o ESTOICISMO.

O termo “Estóico” tem sua origem em “Stoa Poikilé“(que significa "Pórtico Pintado"), um espaço público na cidade de Atenas onde o fundador, Zenão de Cítio, costumava se reunir com seus alunos para ensinar filosofia.

Uma filosofia “a sério” necessita preencher três requisitos:

O “ponto Arquimédico” (termo de Mario Ferreira dos Santos), um discurso logicamente coerente e uma Ética coerente com o discurso, uma vida que segue a filosofia como Sócrates deu o exemplo aceitando ser envenenado por cicuta. (1, p.17-18).

O “Ponto arquimédico” é um axioma, um princípio auto-evidente, válido por si, que sustenta todo “FILOSOFEMA”, o conjunto único de vida e obra do pensador, deste axioma como premissa inicial desenvolve-se o discurso coerente, a doutrina, o qual tem aplicação prática na vida ética, moral, existencial da vida do filósofo, suas reações e atitudes frente aos acontecimentos da realidade a seu redor.

A Filosofia Estóica atende aos tres requisitos e interessou aos romanos por sua utilidade, ser prática e empregada no dia a dia.

Filósofos romanos refinaram a Filosofia Estóica; Marco Aurélio era Imperador de Roma e filósofo estoico, e Epiceto era escravo e também filósofo estoico, seu nome vinha do grego “adquirido” ou comprado, de um Imperador a um escravo passando por poetas e advogados, todos praticaram o estoicismo encontrando a serenidade e a calma.

SUMMUM BONUM” é manter o foco no bem supremo e agir virtuosamente, com ética e coerência.

SYMPATHEIA”: "Simpatia" (ou interconexão). O princípio estoico de que todas as coisas no universo estão conectadas e que a humanidade deve agir em prol do bem comum.

AMOR FATI” ("Amor ao destino") aceite a realidade, compreenda sua circunstância, seu entorno, e tome decisões ponderadas e calmas, mas realistas.

IMPERARE SIBI MAXIMUM IMPERIUM EST" (Saber governar a si mesmo é o maior dos poderes). Um lema clássico associado ao controle das próprias emoções e ações.

PREMEDITATIO MALORUM” ("A pré-meditação dos males"). O exercício mental de visualizar obstáculos e perdas antes que eles ocorram, reduzindo o impacto de surpresas negativas e desenvolvendo resiliência. é estar preparado para o pior, ser previdente.

MEMENTO MORI” ("Lembre-se de que você é mortal" (ou "Lembre-se de que vai morrer") a consciência de que vou morrer evita a procrastinação.

CARPE DIEM”, aproveite o dia ao máximo.

E no estoicismo percebe-se que a atitude controlada do Vulcano Spock é a APATHEIA.

No estoicismo, “Apatheia” não significa apatia ou indiferença como usamos no dia a dia. Refere-se à liberdade e ao estado de espírito imperturbável frente às emoções destrutivas (como raiva, medo e desejos nocivos), substituindo-as por sentimentos racionais e virtuosos.

Para os estoicos, as paixões (pathé) são emoções exageradas e irracionais que tiram o controle da nossa mente. A apatheia é o domínio sobre essas perturbações, e não o bloqueio total dos sentimentos, é a conquista de uma mente calma que sabe passar pelas adversidades da vida, sem se deixar abalar pelo que está fora do seu controle.

A filosofia estoica incentiva a cultivar emoções boas (como a alegria racional, a cautela e a vontade de fazer o bem), alcançando uma estabilidade que eles chamavam de serenidade.

A felicidade vem da virtude, de viver agindo com sabedoria, justiça, coragem e autocontrole.

Atingir a apatheia significa praticar a separação entre o que depende de você (seus julgamentos, intenções e ações) e o que não depende (opiniões dos outros, clima ou imprevistos).

Ou seja, um estoico pára e observa, respira ates de tomar decisões e agir (“Na desolação não tome decisão” ensina Santo Inácio de Loyola) e não é o que acontece que te perturba, ao contrário, é o que você pensa sobre os acontecimentos, se lhes dá valor bom ou mau, que te afeta, teu pensamento, teus juízos de valor, não sofra por antecipação, pois este sofrimento vem da imaginação ansiosa e não da realidade.

O estóico vive com simplicidade, valoriza o que importa, agre com integridade ética e moral firme, é coerente consigo mesmo mesmo sem ninguém ver (O conceito de "atos sem testemunha" no pensamento de Olavo de Carvalho refere-se àquelas vivências íntimas e solitárias que formam a base da nossa consciência moral autêntica. A ideia central é que a verdadeira moralidade surge de como agimos e julgamos a nós mesmos quando ninguém está nos vendo ou avaliando.).

Ou seja, a busca de Spock pelo KOLINAHR é o exercício da APATHÉIA dos Estoicos.

"A Filosofia é o pedagogo que leva a Jesus". Clemente de Alexandria.

Um pouco de Filosofia leva a mente ao ateísmo, mas a profundidade da Filosofia leva-a para a religião” a frase é de Francis Bacon, que é reconhecido como o criador do “método científico moderno” em virtude de seu método experimental, empírico e indutivo, ele tinha religiosidade sim.

"Um pouco de Ciência nos afasta de Deus, muita Ciência nos aproxima de Deus". Louis Pasteur é um cientista que está atuando hoje na sua vida se você já bebeu um leite “PASTEURIZADO” do supermercado, as descobertas de Pasteur tiveram incomensurável importância na história da Química e da Medicina identificando as causas e prevenções de inúmeras doenças, ele tinha religiosidade sim, senhores.

Bibliografia:

1) Olavo de Carvalho, Curso História Essencial da Filosofia – aula 7, Período Helenístico II (Estóicos).

2) Star Trek e a Filosofia: a ira de Kant. coletânea. São Paulo, Madras 2010.



Este texto foi escrito com base em diálogos com meu amigo por cerca de 40 a 45 anos atrás Fernando Colaferri Pithon.


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