Dicas Calazanistas para autores de Histórias em Quadrinhos

Para sermos lidos precisamos oferecer também um produto interessante, diferenciado, inovador.

“Asterix” parece ser apenas um gibi para crianças, mas o álbum ‘Cizânia” tem o personagem “Tulius Detritos” inspirado em Maquiavel e dá uma aula de oratória e retórica de manipulação política, “Obelix e Cia” ensina Economia e monopólios, “Domínio dos Deuses” denuncia a especulação imobiliária e por ai vai, ou seja, tem vários níveis de leitura, além de divertir, informa, apresenta conteúdo, e é guardado, não é de consumo descartável como os gibis dos USA e Japão, você retorna e lê novamente tempos depois.

Um filósofo grego, Aristóteles, dizia no livro “Arte Poética e Retórica” que uma boa história precisa ter ETHOS, PATHOS e LOGOS, quer dizer,

a) Pathos significa paixão, emoção, é a pancadaria ou a aventura, a sensualidade, as paixões e emoções.

b) Ethos é a ética, a moral da história, a mensagem, a catarse de ver o malvado ser castigado e o bem vencer o mal, ou a ironia contrária, ou no gênero terror todos os pecadores serem punidos.

c) Logos é a lógica, a coerência e racionalidade, as explicações como fazem detetives tipo Sherlock Holmes ou Batman, ou na ficção científica as explicações da armadura do Homem de Ferro ou dos poderes do Super Homem.

Assim, se você cair na lorota de somente precisar de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” e sair desenhando ser um argumento bem pesquisado e um roteiro bem decupado com posições de câmera e diagramação dos quadros, sem uma mensagem a passar, sem ter algo a dizer que mereça ou precise ser dito, e sem coerência lógica, não vai ter como concorrer com os quadrinhos feitos pelas multinacionais que seguem estas regras.

Pense bem, o Brasil tem quantos escritores com prêmio Nobel? Quantos escritores brasileiros vivos você gosta e acompanha? Quantos dramaturgos vivos você sempre vai assistir as peças no Teatro?

Ora, se não temos boa literatura não teremos boas peças de teatro que são construídas com diálogos, e sem Teatro não teremos um bom Cinema, cuja origem foi o teatro fiilmado até Einseinstein criar a Montagem e Griffit criar as Óperas filmadas (Tirado da arte Total do Wagner).

Logo, sem literatura não tem teatro, sem teatro não tem cinema, e sem cinema como ter uma História em Quadrinhos significativa?

Nossa luta é por descobrir o que nos comove e motiva, e criar uma obra coerente honesta e sincera, nos esforçar por entender Propp e as narrativas de fadas russas, e estas três dicas do Aristóteles (Ethos, Pathos e Logos), e aperfeiçoar nossos roteiros como fazemos com nossos desenhos, somente assim começaremos a luta, oferecendo o regional, a alma local brasileira (WolksGeist) para contrapor ao produto internacional que nunca vai conseguir oferecer este sabor local.

Seria enfrentar o hambúrguer do MacDonald oferecendo Feijoada ou Acarajé.

Costumamos prestar mais atenção no desenho, e nos esquecemos de que o desenho existe a serviço de um roteiro preexistente.

Nos cursos e palestras que ministro sobre Quadrinhos uso sempre desta frase que criei para acentuar este conceito.

“As Histórias em Quadrinhos são histórias desenhadas em sequência de vários quadros. - Amar apenas o desenho é como amar um corpo sem alma, é necrofilia. - Já amar apenas o roteiro é amar uma alma sem corpo, é ser platônico. - O equilíbrio entre as artes plásticas no desenho e a narrativa literária faz este amor completo a um corpo lindo e animado por uma alma que representa os valores que nos fazem ser quem somos” Flávio Calazans.

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Flávio Mário de Alcântara Calazans

Comentários

  1. Belo texto: Fica uma pergunta: Onde fica o humor como base de historia em quadrinhos?

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