TEORIAS da COMUNICAÇÃO e Quadrinhos

TEORIA DA COMUNICAÇÃO E HQ XXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação - INTERCOM, Recife-PE, 7 a 16 de setembro de 1998. Expositor com resumo publicado no programa à página 74






Flávio Mário de Alcântara Calazans Doutor pela ECA-USP ; Livre Docente pela UNESP; Professor da Pós-Graduação da Cásper Líbero.






1. INTRODUÇÃO Objetiva-se aplicar as Teorias da Comunicação à mídia impressa das Histórias em Quadrinhos. A metodologia empregada é a pesquisa bibliográfica, acrescida da observação participante e experiência acumulada de dez anos lecionando a disciplina “Teoria da Comunicação” em cursos de graduação e pós-graduação, em diversas Universidades, para alunos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Rádio e Televisão, Cinema, Relações Públicas , Artes e Arquitetura, sempre orientando monografias que apliquem as Teorias a casos práticos.






2. TEORIAS DA COMUNICAÇÃO NO PLURAL Enquanto as ciências Exatas e as ciências da Natureza (como Química e Física) costumam apresentar-se monoparadigmáticas (centralizadas e dirigidas por um único modelo de pensamento/questionamento, uma só metodologia), no caso das ciências Humanas ocorre o fenômeno da diversidade dos paradigmas como característica.






Esta peculiaridade epistemológica ocasiona alguns problemas de pesquisa, como por exemplo o despreparo e ignorância de certos pesquisadores que insistem em denominar "Teoria da Comunicação", no singular, uma pluralidade de paradigmas divergentes. Assim sendo, é mais adequado, em termos de Filosofia da Ciência, falar-se no plural - Teorias da Comunicação, como sendo um conjunto múltiplo de paradigmas que abordam os fenômenos comunicacionais.






O objeto deste conjunto, por vezes auto-excludente de Teorias, são os construtos culturais, nos quais se enquadram os gêneros narrativos ficcionais da Cultura de Massas, tais quais o Cinema e as Histórias em Quadrinhos.






Surgem destas Teorias as mais diversas formulações hipotéticas e suas correspondentes metodologias, tais quais as pesquisas quantitativas-estatísticas ou as qualitativas - estudos de caso, análise de conteúdo, etc..






As Teorias da Comunicação chegam a empregar metodologias das ciências sociais, como por exemplo a Observação Participante, oriunda da Antropologia Cultural, ou as abordagens estruturalistas (que busca as estruturas e esqueletos subjacentes às manifestações simbólicas), entre diversas outras.






Surgem, então, pesquisas com abordagens das mais díspares, e esta democrática diversidade possibilita uma mais vasta Heurística e o decorrente progresso epistemológico, dentro do conceito de liberdade de pesquisa da Tradição Universitária.






Por exemplo, para a dita ESCOLA DE FRANKFURT, fundada em 1923 na Alemanha, com sua teoria crítica de base marxista e com a metodologia de pesquisa estatística-quantitativa, a HQ faz parte da Indústria Cultural, é produção em série massificadora que perpetua a ideologia da Classe Dominante, numa dialética luta de classes opressora do proletariado.






Lógico que tais argumentos são adequados para personagens como Capitão América ou Tio Patinhas. Mas, após a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, talvez seja cabível ousar-se pensar em atualizar estas teses da década de 20, de antes da Segunda Guerra Mundial, adequando-as a um Ranxerox ou Druuna.






Já a teoria FUNCIONALISTA, fundada por norte-americanos da década de 30, de orientação marcadamente positivista, tenta aplicar às múltiplas variáveis dinâmicas dos fenômenos culturais os métodos originários das ciências físicas e naturais, em paradigmas como o de Lasswell ou Lazarsfeld. Para eles, a função social das HQ's seria satisfazer as necessidades de auto-realização do indivíduo consigo mesmo, necessidades de evasão, narcisistas, voltadas para o ego ("Tarzan", "Conan"). Contudo, uma HQ politicamente engajada e panfletária ou uma HQ de propaganda política ou eleitoral, ao contrário, pode despertar o senso crítico e reforçar os vínculos do leitor com sua comunidade.






Autores como Alan Moore produzindo obras anarquistas como “V de Vingança” ou engajadas na causa ecológica de movimentos como o “Greenpeace” ou o Partido Verde põe em cheque ou falseiam tais classificações. Novamente, os paradigmas arcaicos de 1920 e 1930 precisam ser repensados, antes de forçar-se uma aplicação cega em países (local) e contextos históricos (tempo) diferentes. Pois a circunscrição de espaço-tempo é crucial no processo ontognoseológico das Ciências da Comunicação, delimitadas dentro das ciências humanas com seus paradigmas trans-disciplinares.






A teoria HIPODÉRMICA, por outro lado, também subestima o leitor, reduzindo-o a simplistas esquemas da Biologia Behaviorista, onde o Estímulo corresponde a uma Resposta (E - R), e a massa passiva, heterodirigida, tem seu pseudo-pensamento manipulado. Esta teoria cresce durante o período das duas guerras mundiais, com seus Estados Totalitários.






Ora, se Mao-Tsé-Tung emprega quadrinhos para difundir a Revolução Cultural, e universitários de Moscou criam Oktobriana na revista Myrsty para atacar o stalinismo, até mesmo os refugiados de Timor Leste também fazem uso da HQ para denunciar o genocídio da Indonésia, como lembra Chomsky, com resultados imprevisíveis que parecem falsear tais paradigmas simplistas, reducionistas ou generalizadores, que desconsideram as “N” variáveis dos processos de Comunicação de Massa.






Nos anos do pós-guerra, década de 50, surge a CIBERNÉTICA de Norbert Wiener, PhD aos 21 anos. É com ela que surge a Análise de Sistemas e a Programação de computadores, os hard e softwares, os satélites, a Telemática, as Hipermídias, o Ciberespaço e a Realidade Virtual, as Telepresenças e os Quadrinhos feitos em computador, como o "Crash" e o "Batman" de Pepe Moreno (Graphic Novels feitas por Computação Gráfica).






Esta teoria, CIBERNÉTICA, vem crescendo e influenciando muito as HQ's dos anos 90 nos níveis de significante (forma) e significado (conteúdo). Surgem HQ’s em novos suportes e com a signagem adaptada para novas mídias como CD-ROM ou nas redes telemáticas como a INTERNET.






Nos anos 60 dos hippies, surge um gênio incompreendido - Marshall McLuhan, que em obras como "The Mechanical Bride" (1951) analisa as HQ's, partindo do conceito cibernético de que a estrutura é a mensagem, o organismo organizado por si só já comunica, o meio é a mensagem. Tal conceito é posteriormente retomado nos anos 90 pela Midiologia de Debray.






McLuhan compara a estrutura ficcional de um Super-Homem, por exemplo, ao mito do anjo da guarda salvador ("Mechanical Bride", p. 102). Na “Aldeia Global” a HQ torna-se interdependente de sistemas Multimídia, mitos lunares como BATMAN tem sua existência midiática pluralizada-pulverizada-fractalmente em suportes impressos (HQ, pôster, Cards-figurinhas, adesivos, camisetas, etc) ou eletrônicos (Cinema, Televisão, Internet, CD-ROM, etc) ou inesperados como hologramas, tatuagens e brandings (Body-art) e os interativos semi-teatros caseiros dos Role-Play-Games.






Enquanto isto, segundo José Marques de Melo na obra "Comunicação Social", surge no Brasil em 1950 uma violenta campanha contra a HQ, alegando que esta estimula o mal nas criancinhas indefesas (p. 176-178). Mero eco do Macartismo e seu Comics Code. O italiano Umberto Eco também analisa HQ's na obra "Apocalípticos e Integrados", dissecando, quadro a quadro, uma tira.






Destes teóricos, surgem abordagens como a SEMIÓTICA, analisando os signos constitutivos da HQ em sua Sintaxe, Sem ântica e Pragmática, a Intersemiose dos balões e onomatopéias simbólicas/arbitrárias com os desenhos figurativos icônicos - signos analógicos, a transição dos Eixos Paradigmático e Sintagmático, além da Semiótica dos Subliminares e a Semiótica da Cultura, e estudos de Cinésica e Proxêmia do personagem de HQ são complementados com estudos dos códigos de cores pessoais como índices de estilo que caracteriza a obra de autor.






Em Barcelona, autores como o professor de cinema Roman Guberne e Javier Coma realizam levantamentos da signagem e semiose da HQ relacionando-a com a literatura e demonstrando seu nível estético e qualidade como obra de arte e bem cultural equiparável ao cinema de autor - de arte, a literatura, artes plásticas, folclore e demais tipos de produção cultural de uma nação.






Em 1970, a teoria HEGEMÔNICA, de orientação marxista, denuncia o Imperialismo Cultural, a dominação e imposição de valores e ideologias, por exemplo, do eixo Rio-São Paulo sobre o resto do Brasil, ou dos USA sobre a América Latina. Desta teoria surge a CONTRACOMUNICAÇÃO ou COMUNICAÇÃO ALTERNATIVA das televisões e rádios livres, e tenta-se explicar a contracultura dos underground comix de um Crumb por meio de uma Nova Ordem Mundial de Informação, um contra-fluxo que desafie os Syndicates e as Agências distribuidoras de notícias e tiras, que desenvolvesse um receptor mais crítico, atuante, com nível de Público, exercendo seus direitos de cidadania e desobediência civil.






Esta é a teoria dos Fanzines e revistas alternativas, que desafiam as estruturas capitalistas de forma, conteúdo e distribuição de Quadrinhos - como a Cooperativa Barata (SP), a Maturi (RN), o Prismarte e a Fri (ambas do RJ) e tantas outras. Mas as teorias da Comunicação não param aí.






Nos idos de 1980, na Alemanha, surge a HERMENÊUTICA pós-gadameriana, que desentranha as camadas de significação, procurando interpretar, integrar os horizontes hermenêuticos (pontos de vista) do Emissor (autor) e Receptor (leitor), em uma crítica dos signos que desmascara as manipulações subliminares dos Editores. Deste paradigma pode advir a tolerância para com estilos diversos como o Mangá japonês, o Super-herói norte americano, o humor das charges politicamente engajadas ou a estética meio trash ou mesmo minimalista de certas experiências underground com fotonovelas de maquetes de massa ou de fotogramas de filmes de desenho animado, exemplos da intersemiose-intermídia dos anos 90.






Por fim, em 1991, Debray lança a MIDIOLOGIA e as teses de McLuhan são revisadas, o que facilita sua aplicação às HQ's. Os Sistemas de Comunicação, contudo, são complexos, resultado de um conjunto orgânico articulado de variáveis inter-relacionadas. E a HQ, enquanto Sistema, sobrevive pela Homeostase, troca de input - output com o ambiente (ciberespaço - espaço cibernético), o que explica as mutações de suporte midiático e as camadas hermenêuticas. Nesta Era de transição epistemológica, de crise do Paradigma (Kuhn), os trans-saberes (saberes multi e inter-disciplinares) exigem o cruzamento e atualização de TODAS essas teorias para a verdadeira compreensão do recorte HQ.






3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Do exposto, percebe-se que uma vasta e ampla gama de abordagens do objeto midiático Histórias em Quadrinhos é passível de aplicação . Futuras pesquisas poderão melhor detalhar estas aplicações ou mesmo propor novos corpos teóricos inter e multi-disciplinares para o estudo das Histórias em Quadrinhos.






4. BIBLIOGRAFIA CALAZANS, Flávio Mário de Alcântara. (organizador). As Histórias em Quadrinhos no Brasil: Teoria e Prática. São Paulo, Intercom-Unesp/Proex, 1997. (Coleção Gts da Intercom, vol.7) ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo, Perspectiva, 1979. FABRE, Maurice. História da comunicação. [ s.l.p.] Ed. Morais, [ s.d.] LITTLEJOHN, Stephen W. Fundamentos teóricos da comunicação humana. Rio de Janeiro, Zahar, 1982. LOPES, Maria Immacolata Vassalo. Pesquisa em comunicação. São Paulo, Loyola, 1990. MC LUHAN, Marshall. The mechanical bride - Folklore of indutrial man. Boston, Beacon Press, 1968. MELO, José Marques de. Comunicação Social, teoria e pesquisa.5ª edição, Petrópolis, Vozes, 1977. WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa, Editorial Presença, 1987.

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